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Sábado de lágrimas, revelações e mesa bem-humorada na Flica

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Ondjaki e Dênisson Padilha Filho (Foto: Egi Santana/Flica)

Ondjaki e Dênisson Padilha Filho (Foto: Egi Santana/Flica)

A mesa Entre vielas e assombros foi, certamente, uma das mais bem-humoradas da Festa. Perfeita para o início de uma tarde de sábado. O encontrou aconteceu entre os escritores Ondjaki e Dênisson Padilha Filho. Apesar de certa leveza, um dos pontos altos, que acalentou os aplausos dos públicos, foi a resposta do angolano quando questionado sobre a influência da educação que recebeu por parte de professores cubanos, quando ainda vivia em Luanda.

Ele disse que os professores o formaram não só ideologicamente, mas que cada um vê como quer. Nunca me deram injeções políticas”, disse ele. Em continuidade falou que sonha com o dia em que a esquerda possa prosperar, pois, para ele, “a direita se organizou de uma forma que a esquerda esqueceu de se organizar”.

Saindo do aspecto política e voltando para o literário – ainda que possam caminhar juntos, o encontro entre os dois aconteceu pela primeira vez. Ambos se encontraram durante o almoço, mas a conversa da mesa que rolava na rua do Conjunto do Carmo, permaneceu do lado dentro até que Ísis Moraes, a mediadora chegasse para complementar o encontro. “A noiva sempre atrasa”, brincou ela, mantendo o clima leve que já pairava no ambiente.

Ao final do bate-papo, o angolano que conquistou Cachoeira com seu jeito irreverente de ser, ficou por mais de uma hora autografando ao lado Dênisson, cujo lançamento era O herói está de folga. Depois dessa aproximação com os leitores, os dois autores foram conhecer os pontos turísticos de Cachoeira. O bate-papo aconteceu às 14h, no lugar da mesa em homenagem à Mãe Stella, Os rastros de antigos laços, que aconteceu às 17h e reuniu mais de 700 pessoas.

Viva João Ubaldo

Geraldo Carneiro, Fernando Vita e Ana Maria Machado (Foto: Egi Santana/Flica)

Geraldo Carneiro, Fernando Vita e Ana Maria Machado (Foto: Egi Santana/Flica)

Mais do que colegas de carreira, João Ubaldo era amigo pessoal de Ana Maria Machado, Geraldo Carneiro e Fernando Vita. Não por acaso ou coincidência, os três compartilharam a mesa Viva João Ubaldo Ribeiro na Flica 2014, em homenagem a obra e vida desse grande escritor, que deixou um legado importantíssimo para a literatura nacional. Por isso, a conversa caminhou descontraída, com lembranças de acontecimentos que trouxeram ao Claustro do Carmo, na cidade de Cachoeira, Reconcâvo Baiano, a presença incontestável de João Ubaldo, como se a qualquer momento ele fosse aparecer pelos bastidores, subir ao palco, sentar-se e compartilhar tais risadas e memórias ao lado daqueles que sempre lhe quiseram bem.

Como uma despedida publicamente oficial que os escritores fizeram a gentileza de compartilhar por uma hora e quarenta minutos com o público presente, Geraldo Carneiro declamou um poema que não poderia ser melhor para ocasião. Não poderia. Nas palavras de Ana Maria Machado. “Esse poema encerrou a homenagem tão com chave de ouro que não tenho mais nada para dizer aqui. Eu quero ficar com o eco que ele me despertou”. Os versos dizem assim:

 

Pelo que descobri e não encontrei,

Pelo que, pascaliano como sou,

Eu compreendi, e ainda assim maldigo.

Sou o idiota mais perfeito, aliás,

Por feito mais de carne que de gás.

É esse o fado que me leva adiante,

Num mundo para o qual não sou prestante.

Tudo o que tenho as mulheres me deram,

Consolação, razão para existir.

Benditas Berenices, Beneditas.

Também sejam benditos meus amigos,

Pois gosto deles, tenham longa vida,

E até eu mesmo que não a mereço,

Mas que a observo e sei qual é seu preço.

A escolha de quem faria a apresentação foi minuciosa, uma de suas quatro filhas, a mais velha delas, Emilia Routers Ribeiro, que deixando escapar um pouco da voz tremula de emoção ao falar do pai, contou sobre o convite que a Festa já fazia a ele desde a primeira edição. “Era para ele estar aqui hoje para receber o Titulo [de Cidadão Cachoeirano] e conversar com vocês (…). Depois que meu pai faleceu, Aurélio [Schommer] insanamente me chamou para participar dessa mesa. Me lembrei de ‘Geraldinho’ Carneiro, amigo fraterno de meu pai, que além de ter produzido coisas com ele, frequentava minha casa sempre, e eles se falavam praticamente todos os dias”.

Ana memorava viagens que os dois faziam juntos e, apesar de parecerem amigos de infância, ela relembrou que se conheceram ao telefone e viraram amigos por meio de ligações. Depois vieram os encontros pessoais, mas a amizade se fortaleceu também na troca de e-mails. Encontro ocasionado pela paixão que, em meio a tantas outras, os unia: a escrita. Mas a identificação continuava por outras razões, como a geração da qual faziam parte – “nascemos no mesmo ano, eu em janeiro, ele em dezembro” – e suas visões e pensamentos, que nem sempre eram de acordo – “a gente ria muito, mas a gente brigava bem”.

Fernando Vita, jornalista e autor também consagrado, declarou-se apaixonado pelo amigo e sua obra. “Eu leio Joao Ubaldo desde que me entendo por gente”, disse quando questionado pelo público. No encontro proposto pela curadoria ficou claro que a missão se cumpriu: diante da perda do maior escritor baiano vivo até então, convidar alguns de seus mais caros amigos para celebrar sua memória. Objetivo cumprido e, como disse Carneiro “infelizmente a vida de João não foi tão longa quanto gostaríamos, mas ele pertence à eternidade através de palavras como essas que ele nos deixou”.