Mesas Flica

Mesa 4 | A voz do autor

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Entre Milton e João, por vezes parece habitar um desencanto. “Desprezávamos a velhice, ou a ideia de envelhecer”, conta o primeiro. “O nada-acontece? Possibilidades estatísticas”, constata absorto o segundo.

Em suas vozes, porém, poderá habitar um encanto possível, diria de todo provável, em seus ouvintes. Sim, João e Milton não escrevem; falam.

Não há como saber o que ouvintes buscam em autores que não se cansam de falar e não cansam quem ouve ao falar. Talvez uma narrativa familiar a seus modos de sofrer e se desencantar. Talvez o encanto de uma sonoridade que de familiar tem o conforto de um colo privado e abrigado.

“Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro”, vaticina Milton, com uma voz tão marcante quanto seu rosto tão expressivo. “Que matéria-nome é passível de devastação?”, pergunta João, voz serena, a revelar o mais decidido dos indecisos ou vice-versa.

O outro, o ouvinte, aquele cuja audição responde aos apelos dessas vozes literárias com encanto, desencanto ou uma nova fala, terceira voz a dar sentido às palavras vertidas de olhares agudos e vozes ao mesmo tempo marcantes e serenas.